quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Dos amores de mulher
I
existe uma fábula que é repassada de ouvido a ouvido, há muito tempo, de que uma das mais belas mulheres se jogara do penhasco de uma ilha aspirando o amor de seu amado pirata que a abandonara. piedosa, afrodite intercedeu em seu favor e lhe deu guelras no lugar do pescoço, bem como uma cauda no lugar das pernas. a mulher, chorosa, não entendeu sua transformação e e perguntou a afrodite:
- por quê, minha senhora? por quê me livrastes do sono eterno? tudo que eu queria era me juntar ao meu amado...
afrodite, cada vez mais compadecida, jurou à criança que a guiaria até o seu homem.
dias passaram pelos mares, até se aproximarem do próximo continente. lá, ele estava rodeado por dois garotos e recebia o mais tenro beijo de uma estranha que não era ela. inconformada, a mulher jurou a afrodite que o faria pagar, por tê-la feito esperar, por tê-la feito amar alguém bem mais que a si própria. afrodite, então, escarneceu.
- não, minha criança. a culpa não é de quem se fez amar, mas de quem ama. não deve você culpar os outros pelas decisões que tomou. trouxe-te aqui para ver que seu amado se encontra feliz, e que segue com sua vida, justamente para que você possa fazer o mesmo!
nesse momento, o homem se dirigiu ao navio e preparou-se para partir.
- vem, criança. levar-te-ei de volta à casa e te embalarei no sono dos deuses. dar-te-ei qualquer homem que desejar e te levarei aos confins do maior palácio da terra, se assim quiser. apenas desista desse amor que não te corresponde. é essa a prova que lhe faço.
a mulher olhou enquanto o homem se distanciava mar adentro em seu navio. observou, então, sua cauda. tocou suas guelras com as pontas dos dedos, e percebeu que se realmente quisesse passar a eternidade ao lado dele, jamais poderia desistir desse dom. olhou afrodite como uma mera pecadora, virou-lhe as costas e nadou. nadou. nadou. em direção ao navio.
afrodite, irresignada, não sabia como responder aquele sentimento. humanos e suas emoções eram coisas que ela jamais seria capaz de compreender e eram justamente esses momentos que a faziam perceber isso.
- ouviu, Cora? foi assim que nasceu a primeira sereia. apenas uma mulher que se perdeu no mar em busca de um amor que jamais alcançaria.
- mas, papai, essa não é a estória da pequena sereia...
- não, minha filha, essa é a estória de uma mulher que amou demais alguém, porém não se amou o suficiente para continuar com a própria vida.
- mas não é uma fábula?
- sim, meu amor.
- então, qual a moral?
- hahahaahh. minha querida, a moral é que você tem que amar, intensamente, profundamente, até os confins de si, mas sem jamais perder a noção de amor-próprio.
- mas, papai, eu não entendo...
- não se preocupe, minha querida. você é mulher. está fadada a escolher em determinado momento. porque os homens têm coração frio, e você, meu amor... você nasceu com um coração puro e pronto para sofrer.
- ãhn?
- nada, querida. durma. durma e sonhe com o reino de atlantis. você vai precisar.
sábado, 19 de outubro de 2013
amor de pai
Cora, minha querida, apazigue seu coraçao. como já dizia Carlos, hoje beija, amanha nao beija, depois de amanha é domingo e e segunda feira ninguém sabe o que será. entao, sossegue, meu amor. de nada importa essa angústia sufocante a que te prendes. nenhum proveito lhe trará se agarrar a esse amor que tanto te rejeita. entao, meu amor, chora. chora esse desgaste pra longe do seu coraçao. porque quando um sabe, e o outro se queixa, é porque nao é pra ser. é porque tem algo melhor que lhe é guardado. nao, nao é o fim do mundo. eu sei que parece, mas nunca é. é mais um coraçao partido. é mais um musculo reforçado. cria asas, Cora. cria asas e procura aquele que vai te amar aos confins, porque Ele está lá, porque Ele está te esperando, e eu também estarei lá, minha criança, aguardando ansiosamente que voce concretize esse seu sonho de família própria. sê, vê, crê, que se realizará. mas sonha. sonha bem alto. seja Ícaro em toda a sua confiança, e jamais deixe esse seu jeito doce de amar, porque é essa sua candura que fará com que Ele saiba que é você a responsável pela felicidade d'Ele, e que uma existência sem você é algo sem sentido. nao, criança. sei que você crê estar vivendo esse momento agora, mas és tao jovem. antes de se perceber, estará entregando teu coraçao a outro, que pode ser Ele, pode nao ser. a vida tem dessas mesmo. o que resta é paciência, e muita ânsia de amar.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
domingo, 15 de setembro de 2013
Coralina - rabiscos d'O Divórcio.
da primeira vez que te vi
eu sabia que era tua
mas ainda assim insisti
em manter minha compostura
da segunda vez que te notei
decidi tomar-lhe nos braços
levar-te prum lugar só meu
e definir nossos laços
da terceira vez que te reparei
fui delineando as diferenças
entre quem um dia amei
e o fruto das desavenças
da última vez que te senti
não mais te reconheci
da boca, o gosto mudou
do cheiro, dissipou
dos olhos...
ah, se um dia eu tivesse
teus olhos
aqueles olhos
para me olhar eternamente
e aquecer meu coração
como na primeira que te vi.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Coralina - Aos doze
Cora segurou o copo
gentilmente com a mão esquerda. Era um das velhas manias que tinha.
Era destra, mas tinha para si que se utilizasse sua mão esquerda,
traria mais sorte, pois tudo que era torto e diferente, na sua
cabeça, era melhor e mais bonito. Concepções de uma garota de 12
anos que cresceu com um pai ausente e uma mãe controladora. Mas, não
importava, porque estava levando um copo de água gelada para A Avó
Doce, que, apesar de amorosa, era ao mesmo tempo incapacitada de
demonstrar carinho normalmente. A vida lhe tinha sido muito dura. Aos
poucos, aprendera a receber, mas dar carinho... não, isso ainda era
muito improvável de se acontecer nessa vida. Era perigoso demais.
A Avó Doce recebera o
copo gelado com um sorriso triste, porém acolhedor. Um sorriso
marcado, sabe? De quem sabe como é A Dor, e do que Ela é capaz. Não
que A sentisse agora, mas porque sabia que Ela não tardava, e sempre
era dura.
Coralina sorriu em
resposta e deitou na rede próxima à d'A Avó Doce. Começou, então,
suas viagens infantis. No primeiro balanço, sonhou que era uma
guerreira. Sonhou acordada que podia invocar elementos e criaturas
místicas para lutar contra forças ulteriores, forças do próprio
mundo real, forças que mais tarde viriam lhe afligir de outra forma.
No segundo balanço, percebeu que A Avó Doce cochilava, e com seus
suspiros sonolentos, ela divagou para uma terra desconhecida, uma
terra de sonhos e possibilidades, onde o mundo se entortava ao seu
querer. Dessa vez, não estava mais acordada.
Cora caminhou por
pastos verdes, e sentiu em sua pele o vento orvalhado da manhã,
embora o sol lhe demonstrasse ser fim de tarde. Pulou em direção às
nuvens e nadou pelos rios dos três céus com os anjos, até que
escureceu, e tudo desapareceu, e só restou ela, em sua medíocre
insignificância, diante d'A Solidão. Sabia que estava sonhando,
sentia que seu corpo continuava parado, na rede, mas não conseguia
mais controlar o espaço conforme seus desejos. Fechou os olhos e se
esforçou, tentando acordar, mas nada acontecera. Foi quando lhe
surgiu uma serpente. Asquerosa, enorme, sibilante, serpente. Ela
levantou o corpo à altura só rosto de Cora e as duas se encararam.
Cora contemplou sua cor avermelhada e seu colarinho negro próximo ao
que corresponderia ao seu pescoço (se serpentes possuíssem
pescoço).
- O que você quer? -
Cora indagou, em uma voz trêmula, como se o simples fato de
indagá-la a fizesse atacar.
A serpente apertou os
olhos, em desdém. Cora tentou se retrair, mas seu corpo ainda
continuava paralisado.
- A pergunta,
garotinha, não é o que EU quero, mas o que VOCÊ quer.
Cora, confusa, tentou
compreender o significado da frase, mas não tivera muito tempo até
o animal se aproximar de sua perna esquerda e ir subindo e se
enroscando e sibilando e ameaçando, até que, de repente, não lhe
podia mais ver a cabeça, apenas o corpo vermelho como o céu das
manhãs de verão enroscado em sua perna. Finalmente, a serpente se
enroscou em seu pescoço e lhe encarou, mais perto que nunca. Cora
não podia mais falar, respirar, se mexer ou sequer pensar, pois o
medo lhe tomara e ela só conseguia ver os olhos da criatura.
- Então, criança,
diga-me, qual a sua decisão? - sibilou a serpente, em uma voz
tediosa, enquanto lhe apertava cada vez mais o corpo.
- Mas... o quê? -
reuniu forças para perguntar.
Impaciente, a serpente
lhe mostrou as presas e assumiu posição de bote. Estava ficando
ainda mais vermelha, e o medo de Cora apenas aumentava. Fechou,
então, os olhos, sem saber a que se referia a criatura, e apenas
assentiu, resignada, ao que quer que fosse.
Nesse momento, o animal
apertou ainda mais o seu corpo e, rapidamente, abocanhou seu ventre e
começou a lhe rasgar a carne, a lhe fluir o sangue, junto a seu
veneno impuro. No entanto, Cora não sentia dor. Pelo contrário,
estava extasiada. O prazer lhe corroía os sentidos. Não sabia o
porquê, mas se entregava à serpete como se fosse a única coisa que
lhe importasse naquele momento. O calor lhe tomava e se expandia para
além de seu corpo, para além do corpo da criatura, até os limites
do sonho. Ofegante, viu marcado em sua pele, ao longo de sua perna,
como tatuagem, os resquícios da serpente. Só que não estava mais
no plano dos sonhos. Era seu corpo. Era sua realidade, e percebia
tudo diferente ao seu redor. Na verdade, tudo estava igual, porém
diferente. Era quente. A serpente dentro de si ansiava e sibilava,
podia sentir perfeitamente. Era sua cúmplice.
Ao olhar para a rede ao
seu lado, A Avó Doce continuava deitada, mas não emitia qualquer
com. Cora a percebeu diferente. Levantou-se, observou sua silhueta, e
viu, Ela, em toda a sua Sabedoria, A Matriarca de sua família, e ao
seu lado a Dama das Damas, em seu longo vestido negro, a levar A
Matriarca para longe. Cora lhe olhou nos olhos, Ela lhe sorriu, mas
Cora nunca esteve tão amedrontada em sua existência. Cora assentiu
e se despediu d'A Matriarca.
sábado, 3 de agosto de 2013
Desde criança, Coralina nunca fora uma boa dançarina. Muito
cedo, sua mãe lutara contra seus calcanhares diversas batalhas, mas no momento
em que chegava o dia da apresentação, eles simplesmente se recusavam a
trabalhar. Ah, sim: sua mãe era bailarina. Então, não importava quantos pliés
fizesse, ou quantos rodopios desse, nunca eram (seriam) suficientes.
Hoje, depois de tantos anos almejando a liberdade, Cora
faria dezoito às 21:12 (leia-se vinte-e-uma-hora-e-doze-minutos, a.k.a., a hora
mais esperada de sua vida, uma vez que acordara às cinco. Sim,
cinco-da-manhã). Tinha apenas uma
certeza, às 21:12:01 estaria pondo o pé fora de casa para não mais voltar.
Porém, sua mãe preparara uma surpresa, nesse dia, às 21:00:
uma apresentação. Claro, ela não poderia deixar de estar sob a luz dos
holofotes, nem mesmo no dia do aniversário de sua filha, principalmente nesse
dia. Então, Cora tomara uma decisão: enquanto tu vens às 21:00, eu já terei ido
há muito. Chegou em casa, juntou seus pertences, o dinheiro que guardara
durante tantos anos, e parou, em frente à porta, prestes a fazer a melhor ou a
pior decisão de toda a sua vida.
Para que entendam, é melhor contextualizar um pouco. Sua
casa era normal, não lhe faltava nada, ia à escola, entrara na universidade há
pouco, porém a velha era um INFERNO. Assim, MESMO. Tanto, que seu pai
abandonara as duas há muito e toda a família já havia se intrigado com ela,
deixando Cora sozinha com esse martírio, o martírio de ser sua filha. “Cora,
meu amor, você pode lavar os pratos, por favor?! Eu vou subindo com o Daniel,
porque o jantar que você preparou nos deixou muito cheios.”, “Cora, minha
linda, você pode lavar meus vestidos? Eu sei que só o que está sujo é o que
usei para ir ao baile da prefeitura ontem, mas amanhã tem um na casa do
governador, e eu ainda não decidi qual usar! Todos devem estar cheirosos, caso
eu escolha um em cima da hora, não acha?”, “Cora, você pode lavar o banheiro?”,
“Cora, arrume meu quarto.”, “Cora, lave as cuecas do Carlos!”. Cora, se manda.
Da janela da porta podia ver o vizinho novo da frente
jogando baseball com seu irmão mais novo. Estrangeiros. Era só o que essa
maldita cidade precisava, estrangeiros tomando de conta do espaço. Respirou
fundo, pôs a mão na maçaneta, e girou. A vida começa... agora.
Nesse momento, ela viu que o mundo se movia em câmera lenta.
Por algum motivo, ela sentia que a bola ia em sua direção, mas não podia fazer
nada, era tarde demais. Sentiu uma pancada e apagou.
Quando acordou, a cara de sua mãe era tudo que conseguia
ver. Inferno, devia estar no inferno. Vai ver que o negócio de honrar pai e mãe
realmente era verdade. A garganta apertou, e não se segurou: vomitou todo o
almoço. Na cara de sua mãe.
- AHHHHHHHHHHHHHHHH! – gritou histericamente em uma voz fina
e irritante.
Cora se levantou devagar e viu que várias pessoas bem
vestidas a observavam, com olhares preocupados. Sua bolsa. ONDE ESTAVA SUA
BOLSA? TODO O DINHEIRO ESTAVA LÁ. Se virou e viu que a bolsa estava perto de
si. Agarrou-se a ela com as forças que tinha, tentando entender o que se
passara. Foi aí que lembrou da bolsa de baseball. Sua mãe continuava com o
drama, como se houvesse ácido correndo sua carne, e Marcos, seu mais novo
namorado que constantemente estava esbarrando sua mão na bunda de Cora, começou
a lhe alisar o rosto e perguntar se ela estava bem. Cora somente assentiu com a
cabeça, sentindo agora a dor latejante em sua têmpora esquerda.
Quando sua mãe finalmente parou de gritar e lavou o rosto,
Cora já estava na sala de estar (ainda firmemente agarrada à sua bolsa), com
todos os outros convidados. Eles pareciam muito tensos, desconcertados, Cora
pensou que eles não deveriam saber se lhe chamavam uma ambulância ou lhe davam
parabéns.
- Então, meu amor, você
está melhor? Eu já posso me aproximar de você? Tem certeza que não vai mais
vomitar? – disse sua mãe, em um tom de desgosto.
Cora a olhou, sem conseguir esconder a pena. Uma mulher tão
medíocre, tão mesquinha, que jamais seria capaz de encontrar a felicidade. Assentiu
com a cabeça, e a cena começou.
- Ó, minha querida, eu estava tão preocupada! Você não
consegue imaginar o meu sofrimento quando cheguei e vi meu bebê caído no chão,
inconsciente. Quase caio eu, junto de você! – recitou, dramaticamente, como se
tivesse pensado bastante no que diria quando me encontrou, antes de chamar
qualquer ajuda. Os convidados pareciam gostar do show, e ela regozijava. Eu,
que não tenho paciência, desvencilhei-me de seus braços e me levantei, um pouco
cambaleante, sendo amparada por Marcos, mas recuperando o equilíbrio logo após
e puxando meu braço de suas mãos.
- Eu estou bem, Valdelice. Mas, tenho que sair, agora.
Tchau.
Nesse momento, a mãe a puxou pelo braço e lhe fixou o olhar.
- Acho melhor você se sentar, Cora. Vai ter uma apresentação
e...
- Não, Valdelice, eu não terei tempo pra ver a apresentação.
– cortei, resoluta.
- Mas, minha querida! Você não precisa se preocupar. Já
guardei todas as roupas sujas que você tinha nessa mochila. Você tem todo o
tempo do mundo. – ela sorriu, maliciosamente, e eu embranqueci. Minhas mãos
correram para minha mochila e eu pude sentir, em minha alma: vazio. Meus olhos
se encheram de lágrimas, e ela continuou – Porque você não sobe e põe seu collant, todos estão ansiosos para ver
você dançar. – o golpe de misericórdia. Eu subi rapidamente, para que ninguém
visse as lágrimas que escorriam involuntariamente.
Cada peça do collant que eu vestia me lembrava de diversos recitais que ela me
inscrevera contra minha vontade e me fazia ranger os dentes de ódio que se
acumulava. No fim, as sapatilhas. As sapatilhas que ela usara em sua última
peça, quando caiu e danificou um tendão. Deu-me de presente no dia da minha
primeira apresentação. Amarrei os laços e desci, pisando firme, meus
calcanhares já travando. Ao chegar na sala de estar, todos já estavam
acomodados, e Valdelice esta vestida, também.
- Vamos, minha querida. Hoje você
é uma mulher. Hoje, sua mãe lhe ensinará a última lição. Uma lição que só pode
ser ensinada por meio da dança. Uma lição sobre o mundo. – disse, com um olhar
frio.
Uma lição sobre o mundo?! Por
favor, aquela vadia vinha me atormentando durante anos e agora queria me
ensinar uma lição sobre o mundo me humilhando na frente de todos os seus amigos
e me rebaixando em público. POIS QUE SE FODA. Eu tinha uma coisa ou duas que
sempre quis ensinar a ela, e estava preparada pra isso.
Fiquei em frente ao espelho da
sala para ajeitar meus cabelos. Cachos são sempre difíceis de se lidar na
dança. Eles insistem em não lhe obedecer. Prendi-os da melhor forma que pude e
me preparei. Quando a música começou a tocar, eu percebi: era o seu número. O
número que ela passara quase trinta anos dançando. Fuck. Mas, não importa. Eu
já estava nessa, eu daria meu melhor.
Ela fez a primeira sequência de
movimentos. Plié. Rodopio. Rodopio. Plié encarpado. Era agora. Tentei sentir
meus calcanhares, mas não os sentia. Isso não era bom. Não mesmo. Todos me
observavam. Eu ficava cada vez mais nervosa. A música continuava. Meu momento
passaria se eu apenas não me movesse, e logo. Lembrei de minha primeira
apresentação. O nervosismo, as pessoas analisando cada músculo do meu corpo, o
sorriso malicioso no olhar de minha mãe. Fechei os olhos. Escutei meu corpo.
Minhas circulações. Meu coração. Tudo estava em um ritmo único, só meu... mas,
havia algo mais. Era música! Era a música! Um violino chorou em meu ouvido
esquerdo e meus braços lhe responderam abrindo as asas. Um violoncelo sussurrou
em meu ouvido direito, e minhas pernas lhe responderam com uma contração simultânea.
Plié. Quando o piano iniciou a chamar meu nome, todo o meu corpo se contorceu e
se desdobrou com seu chamado, liberando uma energia que a fez rodar, em êxtase.
Rodopio. E, assim continuou. A cada instrumento, seu novo chamado, um movimento
quase calculado. Ela dançou todo o número de olhos fechados e, quando
finalmente os abriu, percebeu que todos a encaravam, boquiabertos. Ela estava
calma, centrada na última pose, sem mover um músculo, e demonstrando uma paz em
seus olhos que quase a colocavam em um outro plano. A música havia parado. Tudo
havia permanecido imóvel. Era como se ninguém respirasse no recinto. Não via
sua mãe. Ela não importava agora, pois o centro dos pensamentos de todas
aquelas pessoas era ela, Coralina, a mulher. Desfez a pose e fez reverência, em
agradecimento a seus expectadores. O mundo voltou a se mover. Todos aplaudiram
e assobiaram como se tivessem acabado de testemunhar uma apresentação da sua
grande inspiração, Svetlana Zakharova, a estrela do ballet Bolshoi.
Cora sorriu. Sua mãe não movera
um músculo ainda. O vinil d’O Corsário continuava rodando na vitrola, mudo,
assim como Valdelice.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Expectativa. Toda noite era cheia de expectativas e esperanças e desejos quase sempre não correspondidos ao final, mas que era o que a movia. Dezesseis anos, e tudo que queria era ficar ali, estável, naquela constante energia de ir para a escola, fingir aprender, fingir socializar, deixar tudo pra trás, se perder nas ruas e becos daquela cidade tão quente para encontrar seus amigos em qualquer casa abandonada e relaxar ao som de Crystal Castles, enquanto experimentava a nova mistura de João.
João era um cara legal. Muito inteligente, mas daquelas inteligências peculiares, para fazer coisas erradas, digamos. Ele não trabalhava, nem estudava, morava com sua mãe, que trabalhava à noite nas ruas da Beira-mar e dormia o resto do dia. João tinha apenas um talento: misturas. Não sei como, mas ele conseguia pegar qualquer droga e misturar de formas loucas que potencializavam o efeito da forma como ele quisesse. Graças a ele, tive a melhor trip da minha vida com ácido modificado. Sou grata até hoje.
- Eae, John! Beleza? - eu disse em tom jocoso.
Ele me olhou das pernas até os seios (ele sempre parava nos meios seios por um milésimo de segundo... ou dois, rs), sorriu um sorriso sacana e, ao pegar minha mão, puxou-me para si:
- Diga lá, Cora! Não vai me dar um beijinho de boas-vindas, não?
Ele tinha acabado de voltar. De onde? Ninguém nunca sabe ao certo. Ele sempre sumia por alguns dias, às vezes semanas (era a época em que nos concentrávamos nos estudos, dependendo da sua definição de concentrar), e sempre voltava com coisas muito boas para que nos divertíssemos. Mas, eu não dava mole. Não para ele. Apesar de gostar dos seus bagulhos, eu não gostava dos seus bagulhos, se bem me entendem.
-Quê isso, brother?! Já pode ir me largando, viu?! Ou você quer que eu fale pro Augusto? - eu levantei a voz, de modo a demonstrar minha seriedade.
João apertou os olhos e fechou a expressão. Augusto era meu poder. Augusto era minha propriedade. Era ele quem "fornecia" para João, e era ele quem não deixava um homem sequer me tocar (pelo menos que ele soubesse). Pode parecer o inverso, que eu sou apenas uma de suas vadias, e que eu faria qualquer coisa pra cheirar o que quer que ele me trouxesse. Mas, não. Eu não transava com ele. Apenas isso. Sim, eu ainda era virgem. Ou pelo menos era o que dizia pra ele.
- Cara, pra quê essas agressividade? Eu tô só pedindo uma recepção de boas-vindas... - ele falou, largando-me e baixando a voz.
Eu me aproximei de seu rosto, dessa vez, e lhe segurei o queixo com a mão direita.
- Eu te conheço, John. Se eu desse espaço pra te dar boas vindas, você provavelmente já estaria tentando enfiar a mão dentro do meu short. - eu disse em uma expressão séria.
Ele sorriu, canalha, e ficou calado. Eu sorri, deitei-me num sofá velho que tinha na sala, e mudei para um tom mais alegre, extático.
- Então, me diz, coelhinho da páscoa, o que trazes pra mim?
Ele continuou sorrindo, levantou-se, veio em minha direção, encarando-me, chegou perto do meu rosto, levantou a blusa com a mão esquerda, mostrando... não, exibindo seu tanquinho musculoso, macio e branco, pôs a mão direita dentro da calça (eu continuava o encarando, embora desejasse muito olhar para a parte que ele remexia), e depois de um tempo me provocando, retirou um pacote de plástico com alguns comprimidos azuis dentro. Eu, agora, olhava para as pílulas azuis.
- O que é? - indaguei, excitada, enquanto ficava de joelhos na poltrona.
Ele apenas continuou com o mesmo sorriso sacana (e embasbacado) e me disse, enquanto tirava um do saquinho, engolia, e me oferecia outro:
- E eu vou estragar a diversão?
Deixei ele botar o comprimido em minha boca enquanto tentava fazer seus olhos não desviarem dos meus. Eu estava no controle. Ele era meu. Ele faria o que eu mandasse, quando eu mandasse, porque ele queria me comer. Era essa a verdade pura e simples.
Ele sentou na poltrona encardida ao lado do sofá e eu me deitei, espreguiçando-se, enquanto observava as cores se multiplicarem diante de mim e me envolverem em ondas de calor comedidas até o momento em que não existiam mais.
João era um cara legal. Muito inteligente, mas daquelas inteligências peculiares, para fazer coisas erradas, digamos. Ele não trabalhava, nem estudava, morava com sua mãe, que trabalhava à noite nas ruas da Beira-mar e dormia o resto do dia. João tinha apenas um talento: misturas. Não sei como, mas ele conseguia pegar qualquer droga e misturar de formas loucas que potencializavam o efeito da forma como ele quisesse. Graças a ele, tive a melhor trip da minha vida com ácido modificado. Sou grata até hoje.
- Eae, John! Beleza? - eu disse em tom jocoso.
Ele me olhou das pernas até os seios (ele sempre parava nos meios seios por um milésimo de segundo... ou dois, rs), sorriu um sorriso sacana e, ao pegar minha mão, puxou-me para si:
- Diga lá, Cora! Não vai me dar um beijinho de boas-vindas, não?
Ele tinha acabado de voltar. De onde? Ninguém nunca sabe ao certo. Ele sempre sumia por alguns dias, às vezes semanas (era a época em que nos concentrávamos nos estudos, dependendo da sua definição de concentrar), e sempre voltava com coisas muito boas para que nos divertíssemos. Mas, eu não dava mole. Não para ele. Apesar de gostar dos seus bagulhos, eu não gostava dos seus bagulhos, se bem me entendem.
-Quê isso, brother?! Já pode ir me largando, viu?! Ou você quer que eu fale pro Augusto? - eu levantei a voz, de modo a demonstrar minha seriedade.
João apertou os olhos e fechou a expressão. Augusto era meu poder. Augusto era minha propriedade. Era ele quem "fornecia" para João, e era ele quem não deixava um homem sequer me tocar (pelo menos que ele soubesse). Pode parecer o inverso, que eu sou apenas uma de suas vadias, e que eu faria qualquer coisa pra cheirar o que quer que ele me trouxesse. Mas, não. Eu não transava com ele. Apenas isso. Sim, eu ainda era virgem. Ou pelo menos era o que dizia pra ele.
- Cara, pra quê essas agressividade? Eu tô só pedindo uma recepção de boas-vindas... - ele falou, largando-me e baixando a voz.
Eu me aproximei de seu rosto, dessa vez, e lhe segurei o queixo com a mão direita.
- Eu te conheço, John. Se eu desse espaço pra te dar boas vindas, você provavelmente já estaria tentando enfiar a mão dentro do meu short. - eu disse em uma expressão séria.
Ele sorriu, canalha, e ficou calado. Eu sorri, deitei-me num sofá velho que tinha na sala, e mudei para um tom mais alegre, extático.
- Então, me diz, coelhinho da páscoa, o que trazes pra mim?
Ele continuou sorrindo, levantou-se, veio em minha direção, encarando-me, chegou perto do meu rosto, levantou a blusa com a mão esquerda, mostrando... não, exibindo seu tanquinho musculoso, macio e branco, pôs a mão direita dentro da calça (eu continuava o encarando, embora desejasse muito olhar para a parte que ele remexia), e depois de um tempo me provocando, retirou um pacote de plástico com alguns comprimidos azuis dentro. Eu, agora, olhava para as pílulas azuis.
- O que é? - indaguei, excitada, enquanto ficava de joelhos na poltrona.
Ele apenas continuou com o mesmo sorriso sacana (e embasbacado) e me disse, enquanto tirava um do saquinho, engolia, e me oferecia outro:
- E eu vou estragar a diversão?
Deixei ele botar o comprimido em minha boca enquanto tentava fazer seus olhos não desviarem dos meus. Eu estava no controle. Ele era meu. Ele faria o que eu mandasse, quando eu mandasse, porque ele queria me comer. Era essa a verdade pura e simples.
Ele sentou na poltrona encardida ao lado do sofá e eu me deitei, espreguiçando-se, enquanto observava as cores se multiplicarem diante de mim e me envolverem em ondas de calor comedidas até o momento em que não existiam mais.
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